sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Arlete e eu

Mais uma noite sem dormir. Com a vista cansada, ponho de lado os dois livros e as inúmeras revistas que alimentam a minha alma com novidades fresquinhas.
Li tantas matérias sobre tantos assuntos! Moda, viagem, ciência e tecnologia, teologia, psicanálise, arte...
Fecho os olhos e, mesmo sem dormir, sonho com uma praia em um belo dia de sol. Vejo a grande diva do cinema, teatro e tv, Fernanda Montenegro, de tailleur e óculos escuros importado, na varanda do hotel contemplando o mar.
O seu nome é Arlete Pinheiro Monteiro. Peço licença aos deuses (e que eles me castiguem!) e começo a desmontar a Fernanda: troco seu scarpin por sandálias Havaianas na cor azul; seu tailleur é substituído por um caftã solto e confortável; os cabelos estruturados são presos em um elástico e escondidos sob um boné.
Ar-le-te! Livre da personagem que a aprisiona. Agora, sorridentes, vamos tomar água-de-coco e conversar sobre a vida, olhando o mar. Falamos sobre as amarras que nos prendem os movimentos, sobre os teatros que temos que representar, sobre os personagens que ou outros acreditam que somos. Quando na vida a Fernanda Montenegro molharia seus pés no mar? Boné ou chinelos? Nossa, que sacrilégio!
Despir-se dos personagens que criamos é tarefa difícil, quase impossível, pois são todos os personagens que dão vida e sentido às pessoas ao nosso redor. Nossa tarefa é corresponder às expectativas.
Olhamos para o mar e concluímos: "Se nos roubaram o corpo, resta-nos ao menos a capacidade de sonhar..."
Arlete dá um sorriso e se vai, caminhando descalça e feliz pela beira do mar. Certamente Fernanda voltará a tomar seu corpo e a representar a diva que tanto admiramos e precisamos ter por perto. Mas, ao fechar os olhos antes de dormir, apenas a Arlete irá se lembrar do conforto do caftã, do sabor da água-de-coco ou do frescor da água do mar.
Também terei meu corpo possuído pela personagem que criei. Mas um sorriso subversivo sairá em meu rosto lembrando sempre que "sou mais forte do que eu". (Ah, a frase é de Carice Lispector. Li numa revista e a-do-rei!).

RKS - 03/03/2006

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